domingo, 1 de fevereiro de 2015

Eixo Francisco-Obama-Cuba, prestidigitação e confusão



Cuba, minha terra natal, acabou de completar 56 anos de martírio sob uma nefasta revolução comunista. Diante deste drama gigantesco e deste trágico aniversário, sobre a face da terra quase não se ouviu vozes de indignação por uma situação que clama ao céu. Muitos governos que anos após anos, rasgam suas vestes na ONU para condenar o chamado “embargo externo” dos Estados Unidos, enviaram mensagens de saudação aos tiranos castristas e nem sequer meia palavra disseram sobre o implacável “embargo interno” do regime contra 12 milhões de habitantes da ilha-prisão.
Estamos diante de um dos maiores exemplos de truque de publicidade de toda a História: um regime que durante décadas foi a ponta de lança de revoluções sangrentas na América Latina e na África, e que hoje continua tecendo cordões umbilicais ideológicos nas três Américas, de uma merecida imagem de agressor passou a ter a imagem mais mentirosa de vítima.
São inúmeros os casos de ajuda internacional ao regime cubano, que permitiram e permitem a sua sobrevivência. Depois do gigantesco respaldo financeiro da União Soviética até o seu colapso; da Venezuela Chavista até sua atual desintegração e do Brasil lulista-dilmista, agora com os cofres mais vazios, surge a partir da América o inesperado “eixo” Obama–Francisco. Um eixo político e espiritual sui generis que, independentemente das intenções dessas altas personalidades, passará a abastecer com rios de dinheiro e prestígio publicitário o aparelho repressivo do regime.
No dia 19 de dezembro, dois dias depois que em Roma, Washington e Havana foi anunciado simultaneamente o restabelecimento das relações diplomáticas entre o governo dos Estados Unidos e a ditadura cubana, uma embarcação da Guarda Costeira castrista, presumivelmente, em águas internacionais, começou a investir contra uma lancha na qual fugiam 32 pessoas, incluindo sete mulheres e duas crianças, até conseguir afundar a frágil embarcação. Esses cubanos simplesmente buscavam a liberdade e tentavam romper o ignominioso “embargo interno” que a tirania de Castro impõe aos seus habitantes.
ATAQUE À LANCHA DE REFUGIADOS POR CASTRISTAS.
Masiel González Castellano, uma sobrevivente, esposa de Leosbel Beoto Diaz, que morreu afogado, narrou  por telefone mais tarde: “Nós estávamos gritando, pedíamos auxílio, que nos ajudassem porque o barco estava afundando. Mas eles não faziam caso. O que faziam era partir pra cima da lancha. Algumas pessoas se jogavam na água e outros ficaram ali enquanto a lancha ia se afundando. Eles sabiam que haviam crianças e mesmo assim continuavam se jogando pra cima de nós. Pouco lhes importava”.
Foi uma ação brutal por parte de um regime que se sente com as costas largas, protegidos por poderosos aliados. O fato criminoso que tanto comprometia o regime de Fidel Castro, teria merecido um clamor global de repúdio, todavia passou quase despercebido pela imprensa internacional, pelos governos ocidentais, organizações de defesa de “direitos humanos” e, oh dor! por eclesiásticos que deveriam imitar o Bom Pastor, dispostos a dar a vida por suas ovelhas.
No dia 31 de dezembro em Havana, coincidindo com os 56 anos de revolução, desencadeou-se uma onda de repressão contra opositores que estavam tentando apenas se reunir na Praça da Revolução, ilustrando, como se não houvesse qualquer dúvida, quais são as reais disposições do regime.
Nos Estados Unidos, diversos especialistas têm demonstrado de maneira documentada como a aproximação quase incondicional do governo dos EUA favorece o regime cubano e prejudica a causa da liberdade na ilha, cujos habitantes ficarão muito mais à mercê dos tiranos; e criticaram duramente o Presidente Obama (cf. “Dissidentes cubanos acusam Obama de traição”, Marc A. Thiessen, Washington Post, 29 de dezembro de 2014. “Obama dá ao regime de Fidel Castro em Cuba um resgate desmerecido” Editorial em Espanhol e Inglês, Washington Post, 17 de Dezembro., 2014).
No entanto, poucos são os analistas que destacam o aspecto mais grave e trágico deste acordo: a responsabilidade que cabe ao seu artífice e mediador mais eminente, o Pontífice Francisco. No dia 17 de dezembro passado, no mesmo dia do anúncio do restabelecimento das relações diplomáticas, Francisco, juntamente com a reafirmação do seu papel como mediador, saudou a libertação de alguns “presos” sem sequer insinuar que em Cuba o regime comunista continua mantendo subjugados não apenas “alguns”, mas 12 milhões de cubanos. É extremamente doloroso dizer, mas a bota com que Castro continua a esmagar os meus irmãos da ilha, agora conta com um altíssimo aval.
É preciso recordar que do lado castrista, os “prisioneiros” eram, na verdade, espiões processados e condenados pela Justiça americana por cumplicidade no assassinato dos jovens da organização “Irmãos para o Resgate” e por planejarem transportar explosivos em Miami para realizar atos terroristas. Por tal motivo o líder dos “presos castristas” tinha duas penas de prisão perpétua.
PAPA FRANCISCO
Não é a primeira vez que Francisco, independentemente de suas intenções, adota atitudes que objetivamente favorecem às esquerdas continentais políticas e eclesiásticas. Por exemplo, foi realizado em Roma de 27 a 29 de outubro do ano passado, o Encontro Mundial dos Movimentos Populares Revolucionários que reuniu 100 líderes revolucionários mundiais, incluindo conhecidos agitadores profissionais latino-americanos, e que contou com a participação do próprio Francisco. É como se tivessem realizado uma espécie de “beatificação” publicitária , em vida, dessas figuras revolucionárias de inspiração marxista, beatos sui generis de uma “igreja de cabeça para baixo”, tudo ao contrário da doutrina social da Igreja, defendida por predecessores de Francisco (cf. “O Papa saúda e abençoa” L’Osservatore Romano, 28 de outubro de 2014; “Francisco, ‘beatificação’ publicitária dos revolucionários e ‘vendaval’ social”, Destaque Internacional, 02 de novembro de 2014).
Tive a oportunidade de comentar sobre outros eventos no mesmo sentido, como quando Francisco revogou a “suspensão a divinis” do sacerdote nicaraguense Miguel D’Escoto, da infame ordem Maryknoll, ex-chanceler sandinista e uma das figuras mais pró-castrista da teologia da libertação. O padre D’Escoto tinha sido disciplinado pelo Vaticano em 1984 por seu envolvimento na perseguição dos católicos nicaraguenses durante o primeiro governo sandinista da Nicarágua (cf. “Francisco, pró-castristas e confusão”, Armando Valladares, 6 de agosto de 2014).
Infelizmente, no que diz respeito a Cuba e à América Latina, esses dizeres, atos e gestos do Pontífice Francisco estão direta ou indiretamente favorecendo a opressão do povo cubano e a esquerdização do continente. Paira no ar a sensação de que, sob esses pontos, estaríamos na presença de um pontificado marcado pela confusão e até mesmo o caos, com consequências preocupantes para o futuro político, social e cristão das Américas.
Como Católico e ex preso político cubano que passou 22 anos nas prisões de Castro, e que viu sua fé fortalecida ao ouvir os gritos dos jovens católicos que morriam no “paredão de fuzilamento” gritando “Viva Cristo Rey, abaixo o comunismo” devo manifestar  as perplexidades, angústias e dramas interiores que suscitam os fatos descritos acima. Trata-se de uma situação das mais dolorosas que pode existir, porque dizem respeito aos vínculos com a Santa Sé. Não obstante, como já tive ocasião de manifestar, a fé dos católicos deve permanecer intacta e até mesmo fortalecida diante desses dilemas, porque em questões políticas e diplomáticas nem mesmo os papas são assistidos pela infalibilidade. E não há nenhuma obrigação para os católicos de aceitar essas palavras e ações, na medida em que diferem da linha tradicional adotada pela Igreja em relação ao comunismo.
* Armando Valladares, escritor, pintor e poeta. Passou 22 anos como prisioneiro político em Cuba e é o autor do best-seller “Contra toda esperança”, que narra o horror das prisões de Castro. Ele foi embaixador dos Estados Unidos diante da Comissão de Direitos Humanos da ONU sob as administrações Reagan e Bush. Ele recebeu a Medalha Presidencial do Cidadão e Prêmio Superior do Departamento de Estado. Ele tem escrito numerosos artigos sobre a colaboração eclesiástica com o comunismo cubano e sobre a “Ostpolitik” do Vaticano em relação a Cuba.

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